domingo, junho 26, 2005

"Amei demasiado as estrelas para recear a noite"

-epifácio tumular de um astrónomo amador

sábado, junho 25, 2005

Um dia soube. Outro não.

George Orwell nasceu na India. Passou uma parte da vida vagabundo e sem-abrigo. Um dos momentos que mais o marcou foi na Birmânia, onde era membro da Polícia Imperial Britânica. Tinha chovido nesse dia. Havia charcos por todo o lado. Tinha sido anunciado que um indigena Birmanês tinha sido capturado por um crime menor. Iria ser executado em praça pública. Enquanto se dirigia para o ponto onde iria morrer momentos mais tarde, Orwell reparou que o condenado, de pés descalços, se desviou de todos os charcos. Aí, Orwell percebeu. Em todos os momentos, até nos mais críticos, existia um dignidade suprema no ser humano.

Anos mais tarde, no final da Segunda Grande Guerra, como repórter da BBC, ouviu da boca dos judeus aquilo que antes acreditou não ser possível: existe dignidade suprema, mas apenas quando deixam que exista.

sexta-feira, junho 24, 2005

a porra da festa!

Dois apontamentos sobre a grande festa popular do Porto, o S. João.
O primeiro para dar conta da origem da data do feriado municipal. Foi um acontecimento curioso que teve o Jornal de Notícias como protagonista de um referendo popular aos habitantes da cidade. Ler um texto muito interessante que explica como tudo aconteceu - aqui.
Outro sobre como o alho pôrro está na origem da "porra" que nos sabe tão bem volta e meia dizer.
«Digamos que é um vocábulo... grosseiro. Quer na acepção de «porcaria» («Tira esta porra da minha vista!»), quer como termo de conotação sexual (o mesmo que pénis e esperma), quer ainda quando se usa como interjeição, traduzindo sentimento de ira, discordância ou contrariedade (o mesmo que irra!, apre!, arre!, puxa!). Terá, segundo José Pedro Machado, a mesma origem da palavra homó[ô]nima com sentido de cacete, moca, pau (daí o termo porrada, «pancada», «bordoada»): 'puerro', porrum', «alho» (daí o adj. porráceo, «que tem o cheiro do alho porro»).
In Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa + Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa + Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa + Novo Dicionário de Calão, de Afonso Praça
J.M.C.»


Foto roubada ao Passo a Passo (digamos que, por uma boa causa...). Entretanto espero com orgulho tripeiro a actualizaçao d'A Cidade Surpreedente. Até lá, boas férias!

domingo, junho 19, 2005

6 notas sobre o racismo e a xenofobia

Primeira nota sobre os manifestantes e as manifestações pró-racismo. Onde andam os constitucionalistas que digam de viva voz que é crime a constituição de associações racistas e/ou xenófobas? Era pelo menos um bom motivo para desencadear uma investigação séria sobre o modo como existem os grupos que se manifestaram ontem em Lisboa, nomeadamente o grupo Frente Nacional e o Partido Nacional Renovador.
Segunda nota sobre o grupo Frente Nacional.
"A Frente Nacional é um movimento cívico independente que se reuniu com o objectivo de promover o activismo nacionalista. Apoiamos o Partido Nacional Renovador (PNR), apesar da Frente Nacional não ser um núcleo do mesmo, porque é actualmente o único partido nacionalista português. Demarcamo-nos de qualquer rótulo ou preconceito, sobretudo os que nos sejam atribuídos por terceiros, nem aceitamos ser acusados com as habituais palavras mágicas («racismo», «xenofobia», etc.) que apenas servem para vaporizar qualquer ideia que vá contra a ditadura do politicamente correcto. Rejeitamos também qualquer tipo de violência como meio de atingir quaisquer fins políticos, como foi o caso da manifestação anti-G8 em Génova, na qual o Bloco de Esquerda participou, e que teve como consequência a morte de um jovem. Tristes foram também os incidentes com a Guardia Civil na fronteira espanhola em que estiveram envolvidos anarquistas e militantes da extrema-esquerda liderados pelo eurodeputado bloquista Miguel Portas. Também não podem ser esquecidos os acontecimentos em Matosinhos, que tiveram como consequência a morte de Sousa Franco."
in site da Frente Nacional.
Sem comentários.
Terceira nota sobre o grupo Frente Nacional. É conhecido o modo como os referidos grupos inflamam a realidade extrapolando declarações ou opiniões de outros para alimentarem a "sua luta". Pena é que desse alimento façam parte este artigo e esta entrevista , cujos links são referenciados no site do grupo (ver menu inicial). Nestes temas o cuidado com as palavras deve ser máximo, sob pena de se ser mal interpretado e associado a grupos desprezíveis como este.
Quarta nota sobre a xenofobia. Manuel Monteiro do partido A Nova Democracia defende penas mais pesadas ou a repatriação no caso de crimes praticados por emigrantes ou estrangeiros em Portugal, alegando que é a "Lusofonia" que está em causa. Meu caro Manel, se há coisa que é sabida é a facilidade com que os emigrantes de leste aprendem a falar o português, e julgo estarmos de acordo que os que vêm de África, os ontem tão referidos "PRETOS" já sabiam fala-lo antes de cá chegar. Não sei, portanto, de que Lusofonia falamos. Perdoe-me a ignorância.
Quinta nota sobre o grupo Frente Nacional. A coerência acima de tudo. Se ignorância não vem ter connosco vamos nós ter com ela.
"no Reino Unido, o vídeo da BBC sobre os acontecimentos de Carcavelos menciona a origem dos criminosos: «(...) working in gangs, a word used usually in Portugal to refer teenagers from african imigrant families living in Lisbon» dizendo ainda que as autoridades temem «racial tensions». Será a BBC racista?!"
in site da Frente Nacional

Sexta nota sobre o racismo. A resposta àquela pergunta e a outras que possam eventualmente estar a enssombrar a cabeça de alguns portugueses, está nas palavras do Pensador.

"Racismo preconceito e discriminação em geral
É uma burrice coletiva sem explicação
Afinal que justificativa você me dá para um povo que precisa de união
Mas demonstra claramente
Infelizmente
Preconceitos mil
De naturezas diferentes
Mostrando que essa gente
Essa gente do Brasil é muito burra
E não enxerga um palmo à sua frente
Porque se fosse inteligente esse povo já teria agido de forma mais consciente
Eliminando da mente todo o preconceito
E não agindo com a burrice estampada no peito
A "elite" que devia dar um bom exemplo
É a primeira a demonstrar esse tipo de sentimento
Num complexo de superioridade infantil
Ou justificando um sistema de relação servil
E o povão vai como um bundão na onda do racismo e da discriminação
Não tem a união e não vê a solução da questão
Que por incrível que pareça está em nossas mãos
Só precisamos de uma reformulação geral
Uma espécie de lavagem cerebral

Não seja um imbecil
Não seja um Paulo Francis
Não se importe com a origem ou a cor do seu semelhante
O quê que importa se ele é nordestino e você não?
O quê que importa se ele é preto e você é branco?
Aliás branco no Brasil é difícil porque no Brasil somos todos mestiços
Se você discorda então olhe pra trás
Olhe a nossa história
Os nossos ancestrais
O Brasil colonial não era igual a Portugal
A raiz do meu país era multirracial
Tinha índio, branco, amarelo, preto
Nascemos da mistura então porque o preconceito?
Barrigas cresceram
O tempo passou...
Nasceram os brasileiros cada um com a sua cor
Uns com a pele clara outros mais escura
Mas todos viemos da mesma mistura
Então presta atenção nessa sua babaquice
Pois como eu já disse racismo é burrice
Dê a ignorância um ponto final:
Faça uma lavagem cerebral

Negro e nordestino constróem seu chão
Trabalhador da construção civil conhecido como peão
No Brasil o mesmo negro que constrói o seu apartamento ou quelava o chão de uma delegacia
É revistado e humilhado por um guarda nojento que ainda recebe osalário e o pão de cada dia graças ao negro ao nordestino e atodos nós
Pagamos homens que pensam que ser humilhado não dói
O preconceito é uma coisa sem sentido
Tire a burrice do peito e me dê ouvidos
Me responda se você discriminaria
Um sujeito com a cara do PC Farias
Não você não faria isso não...
Você aprendeu que o preto é ladrão
Muitos negros roubam mas muitos são roubados
E cuidado com esse branco aí parado do seu lado
Porque se ele passa fome
Sabe como é:
Ele rouba e mata um homem
Seja você ou seja o Pelé
Você e o Pelé morreriam igual
Então que morra o preconceito e viva a união racial
Quero ver essa musica você aprender e fazer
A lavagem cerebral

O racismo é burrice mas o mais burro não é o racista
É o que pensa que o racismo não existe
O pior cego é o que não quer ver
E o racismo está dentro de você
Porque o racista na verdade é um tremendo babaca
Que assimila os preconceitos porque tem cabeça fraca
E desde sempre não para pra pensar
Nos conceitos que a sociedade insiste em lhe ensinar
E de pai pra filho o racismo passa
Em forma de piadas que teriam bem mais graça
Se não fossem o retrato da nossa ignorância
Transmitindo a discriminação desde a infância
E o que as crianças aprendem brincando
É nada mais nada menos do que a estupidez se propagando
Qualquer tipo de racismo não se justifica
Ninguém explica
Precisamos da lavagem cerebral pra acabar com esse lixo que é uma herança cultural
Todo mundo é racista mas não sabe a razão
Então eu digo meu irmão
Seja do povão ou da "elite"
Não participe
Pois como eu já disse racismo é burrice
Como eu já disse racismo é burrice
Como eu já disse racismo é burrice
Como eu já disse racismo é burrice
Como eu já disse racismo é burrice
E se você é mais um burro
Não me leve a mal
É hora de fazer uma lavagem cerebral
Mas isso é compromisso seu
Eu nem vou me meter
Quem vai lavar a sua mente não sou eu
É você"


"Lavagem Cerebral", Gabriel O Pensador

segunda-feira, junho 13, 2005

o amigo mais íntimo do sol

Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
ao fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esquecerei de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!


Eugénio de Andrade

quinta-feira, junho 09, 2005

dois sites canhotos

Respectivamente, informação sobre a europa, e lugar de reflexão à esquerda:
-> Miguel Portas dote net.
-> Revista Manifesto.

quarta-feira, junho 08, 2005

ao som de bitches brew



Miles Davis

a cultura da europa (e a europa da cultura)

A França foi a primeira a dizer "não!". Correu mal. Depois a Holanda, e a coisa correu pior do que se podia imaginar. Porque de dois fundadores se trata. No fundo uma questão de táctica: ou se tinha agendado um dia único para todos os referendos (um dia que lhe merecesse, à UE, a mobilização de todos: impossível, a utopia da europa, talvez), ou se deixava a classe paterna para o fim (havia menos estragos, é certo, mas seria muito pouco honesto, sem perdão). A ironia do calendário (e dos resultados) dos referendos fala mais alto, como que afirmando a distância entre o povo, os seus próprios parlamentos, e as entidades europeias.
De facto não cabe a cada governo amamentar o conhecimento de cada um com serviços personalizados de informação: a cidadania deve ser exercida de forma activa e não passiva. Não sei se os governos (e respectivas oposições) terão a noção da incultura que paira sobre os seus países. A questão é que enquanto não forem criados hábitos culturais nunca haverá interesse em conhecer ou participar em desafios como a Europa. E assim se corre o risco de, nos sucessivos referendos europeus, haver um chumbo à iniciativa em causa, muito menos por decisão informada e ponderada, do que, por exemplo, por votos de protesto a questões internas a cada país que pouco têm que ver com a questão em causa - e que se tornam num objecto de fácil apropriação como causa eficaz que justifica a decisão.
É perverso que os partidos, e falo do caso português, se acomodem à fidelidade do seu eleitorado e tornem os assuntos europeus numa espécie de tabu. Quem deve informar não informa nem apela à informação, não promove, mas critica o desinteresse. Não há debate, a informação só está na internet a que muitos simplesmente não têm acesso, ou falta o tal hábito da informação. O desfasamento entre a realidade de um país "tecnologicamente chocado" e a do país real é proporcional ao nível de abstenção nas urnas e também já antes delas. E os responsáveis, tanto por isto, como, por imediata correspondência, pelas "contrariedades" nas questões europeias, são os governos e só os governos.

Serralves em Festa

Este ano tive a felicidade de poder estar presente neste acontecimento, que se repete pelo 2º ano consecutivo com um sucesso para além de todas as expectativas.
Serralves é já por si um local ímpar, por todo a sua envolvência e mística e pela qualidade das exposições que nos oferece. Mas realmente incrível foi encontrar esse mesmo local a fervilhar de pessoas de todas as "tribos" e idades e de actividades para todos os gostos, num espírito quase de festival de Verão (barraquinhas de cerveja incluídas), confirmando e reforçando a proximidade singular que este casa da cultura tem com a população portuense (e não só...).
O objectivo principal da visita era assistir à actuação da Mingus Big Band, que interpreta temas de conterabaixista Charles Mingus.
A fasquia estava bem alta, sendo referidos por todo o lado como uma das melhores big bands do mundo, e os seus créditos foram mais que confirmados já que foi um grande espectáculo. Presentes em palco (improvisado numa tenda de circo no prado mas com uma acústica bem razoável) estiveram, se não me engano, 3 trompetes, 3 trombones (sendo um deles também cantor e MC), 5 saxofones e a secção rítmica base com piano, contrabaixo e bateria (incansável e perfeita, com 3 ou 4 solos sobre-humanos).
A banda esteve sempre impecavelmente coesa, sendo os "coros" intercalados por 2 a 4 solos por música, todos eles excelentes, com destaque para um dos saxs (que era também o "maestro")que, ao melhor estilo coltraniano, nos presenteou com um som fabuloso. Destaque também para o cantor/MC, a alma da banda, com uma voz de Blues que encaixava como uma luva nas músicas que cantava e que tranformou o encore no melhor momento da actuação, animando as hostes com o seu bom humor contagiante, conseguindo pôr um público já rendido a participar.
A actuação terminou com "Shuffle Stop Boogie", a que o MC adaptou uma letra de Spider Man e em que todos os músicos, em fila indiana, tiveram direito ao seu solo...Inesquecível.
E eu que não ligava às big bands...
Para o ano há mais.

sábado, junho 04, 2005

let's jazz!


Louis Armstrong Hot Five

Por vezes a cultura chega ao homem por meio do bichinho do coleccionismo, desse mágico acumular de uma riqueza não monetária, protagonizada por um prazer quase infantil. E com o juntar quantitativo, o homem é naturalmente invadido pela substância dos objectos adquiridos, e assim se acrescenta.
Será porventura com objectivo de explorar também este espírito que nos habita de uma forma geral, que são lançadas por jornais e revistas as conhecidas e cada vez mais frequentes colecções de livros, cds, dvs, calendários, etc. Ainda que cada um tenha noção do tempo que demorará a absorver cada colecção, de tão extensas que costumam ser, cada um compra para ter a colecção completa. Claro que o preço reduzido de cada unidade, comparado com o preço a que se encontram nas lojas, incentiva à compra, mas julgo que será só uma facilidade para que o primeiro passo seja dado rumo ao completar da colecção.
Escrevo isto a propósito da coleção de cd + booklet "let's jazz em público" que sai às 5ªs com o Público. Julgo que por pouco dinheiro se fica com uma boa documentação sobre a história do jazz, o que é excelente tendo em conta a fantasmagórica cultura do jazz em Portugal. Os dois primeiros números (31, ao todo) já saíram, a música é boa, muito boa, um trabalho coordenado pelo famoso José Duarte (dos "5 minutos de jazz" da antena 1). Desaponta apenas pelo pouco texto: essencialmente fotografias, um texto sobre o tema do cd, e um comentário a cada faixa audio ao bom estilo de José Duarte. Apesar da sua excentricidade - aliás implícita de certo modo no projecto - perdoa-se-lhe algum elitismo um tanto ou quanto condicente com a forma como o jazz é sentido no nosso país, que torna o já pouco texto pouco acessível. O que não deixa, no entanto, de ser permitido a quem tem o maior espólio de jazz em terras lusas (ou pelo menos tinha, já que o doou à Universidade de Aveiro, onde fundou o Centro de Estudos de Jazz) e que ao jazz dedicou a sua vida. Pode não gostar-se do estilo, mas concorda-se que de outra forma (e por tão pouco dinheiro) seria impossível o acesso ao raro material que a coleção nos dá - podem, por exemplo, ouvir Louis Armstrong cantar "Coimbra" em versão big band "April in Portugal"!
A colecção está bem organizada, com números sobre músicos intercalados por dois sobre instrumentos. Pelo dinheiro ou pelo coleccionismo, o importante é começar, porque esta é a não perder!

sexta-feira, junho 03, 2005

tão natural como a sua sede

O que é curioso é que para já, com estes dois "nãos", criou-se, paradoxalmente, um espírito europeu de união entre os países que estão contra a constituição. Pessoalmente sinto-me mais europeu por partilhar da mesma opinião que os franceses e os holandeses, que, movidos pela mesma força, mostraram já que primeiro está a vontade dos cidadãos e depois a das elites. Tenho a certeza que me sinto mais próximo deles do que os do "sim" entre eles. Até porque, como diz o MM&I no post anterior, estes votarão só e apenas de acordo com a cor partidária - que infelizmente se tornou demasiado maioritária no nosso país.
É curioso também ver o exemplo de democracia que a "mãe-França" nos dá, com o seu presidente a atropelar os resultados do referendo enviando uma missiva a todos os chefes dos estados membros corrigindo a inequívoca mensagem popular, com um "mas apesar de tudo somos pelo sim". Chirac style...
Curioso também o pânico em que se entrou após o segundo "não". O que à partida seria um processo democrático de várias consultas populares tornou-se desde já num processo vexatório para "os grandes", a interromper o mais rapidamente possível. O primeiro minitro Luxemburguês ameaça com o pedido de demissão, caso o "não" vença no seu país. Os ingleses já nem a referendo vão. Schroeder parece ter-se já apercebido do espírito da implosão eminente, aconselhando calma nas reacções às contrariedades. Tudo corre mal. Mas como disse João Cravinho na televisão, "há males que vêm por bem". E mesmo que o PS, o PSD e o PP, pela primeira vez na história da política nacional portuguesa estejam de acordo, terei sempre o conforto dos meus amigos franceses, dos holandeses e dos outros que ainda estão para vir. Ah pobre Beethoven, que nem sonhavas com esta quando escreveste o hino!

O Não ao Projecto de Tratado Constitucional Europeu

O pânico instala-se nas hostes pró-europeístas...
A França, um dos países fundadores da actual U. E. e um principais percursores da elaboração do projecto (por uma comissão presidida pelo ex-Presidente da República francês Giscard D´Éstaing), votou não no referendo, por uma larga maioria de aproximadamente 55% dos votantes, numa votação em que a comparência nas urnas foi anormalmente concorrida.
Logo em seguida surgiu a dúvida: será que este resultado é o reflexo da conturbada realidade interna de um país cuja economia está em crise e o desemprego atinge níveis elevados e, portanto, um veto a um Governo cuja orientação não tem sido brilhante ou foi simplesmente a rejeição de um projecto visto por muitos como nefasto para o progresso do ideário europeu tal como foi concebido?
Prevaleceu, pelo menos a nivel interno, a primeira explicação, tendo Chirac reagido de imediato com uma reformulação do elenco governamental que incluíu a substituição do Primeiro Ministro. Esta interpretação não será de todo descabida no contexto já referido mas a dúvida aflorada mantém-se na mente de muitos...
Seguiu-se, no intervalo de dias, o não holandês, com uma abstenção de pouco mais de 30%, quando normalmente costuma ser essa a percentagem de votantes, e uma maioria ainda mais esmagadora, num país onde havia nitidamente uma população esclarecida pelo amplo debate que vinha sendo realizado no período anterior ao referendo.
Receia-se agora a reacção de países como a Grã-Bretanha e Barroso vem apelar à calma e à discussão tranquila da situação em sede própria, ou seja, a Cimeira Europeia a realizar a 16 e 17 de Junho.
Embora entendendo que o contexto interno de um país possa ter influência nos resultados deste tipo de consultas populares, talvez roce o nível do raaciocínio falacioso atribuir por inteiro os números preocupantes atingidos a meros circunstancialismos sócio-políticos e económicos, quando não seriam esses que estariam em causa nesta situação, relegando para 2º plano o verdadeiro problema destes casos e provavelmente de muitos que se seguirão, incluindo o português: o gritante distanciamento entre as instâncias europeias e os povos a quem as medidas em última instância dizem respeito, pois embora positiva e louvável a sujeição a referendo da decisão da ratificação do Tratado, a informação diminuta e o aproveitamento politico das oposições que é feito nestas alturas torna estes processos tudo menos esclarecedores e pedagógicos, pelo que muitos daqueles que vão às urnas não sabem sequer o que estará em causa nem o alcance do acto cívico que estão a concretizar, preferindo antes ter em conta a opinião defendida pela sua côr política...
Será que a norma anexa ao Projecto que permite a aprovação por uma maioria de 4/5 dos Estados Membros (ou seja, apenas poderá haver haver mais 3 "nãos") chegará para evitar o pior?A ver vamos...
Esperemos que o nosso burgo se destaque pela atitude pedagógica e supra-partidária por parte de quem tem verdadeiras responsabilidades, porque não basta espalhar aos quatro ventos as posições defendidas sem a respectiva fundamentação e enquadramento...

quarta-feira, junho 01, 2005

é sempre a bombar!!!!



Sem dúvida um caso de sucesso, este grande grande museu que a nós portuenses nos enche de orgulho. Um enorme sucesso mesmo, senão de que forma seria possível esta prenda que Serralves nos dá? Ainda longe da tão almejada gratuicidade do acesso à arte, temos aqui,porém, um belo aguçar do apetite que nos faz perdoar alguns cobres que custam sempre a sair do bolso. Acima de tudo um prémio. Porque o sucesso é aos visitantes que se deve. E por existir a inteligência e a humildade de quem dirige, organiza e proporciona, na sombra, sempre na sombra, é que o feedback funciona. Parabéns a todos, e muito obrigado!

Serralves em Festa, 4 e 5 de Junho, completamente grates - excepto comidas e bebidas (queriam, não...?). Há espectáculos que requerem o levantamento de senhas 1:30h antes. Há espectáculos que requerem várias semanas de recuperação, depois.