domingo, fevereiro 26, 2006

E era a vida nisto

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Descubram este gajo

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

coisas de amanhã

Foi Van Gogh quem pintou as ruas do Porto - não acreditam? Outra visita obrigatória - é por aqui.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Salvo pelo coreano...


Esta 2ª feira abriu o Fantasporto, o chamado pré-Fantas, já que a abertura oficial será apenas amanhã.
O plano inicial era ver um filme canadiano, "Searching for Alexander", projectado num horário mais em conta, embora o desejo "secreto" fosse mandar as horas às urtigas e ver o ansiosamente aguardado "Sympathy for Lady Vengeance" do Chan-wook Park (o mesmo do já filme de culto Oldboy, laureado neste festival o ano passado se não me engano), que fecha a trilogia sobre violência e vingança iniciada pelo mesmo realizador em 2002, com o filme "Sympathy for Mr. Vengeance" e continuado pelo já referido "Oldboy".
Começa o filme e as legendas não aparecem...o que não constituiria problema caso fosse um filme em inglês e não francês do Canadá, por outras palavras, quase indecifrável, apesar de o "programa das festas" prometer a ajuda do tradutor. E o inevitável acontece: debandada geral e bilhetes devolvidos... Um ínicio auspicioso para um festival no qual, após 26 anos de experiência, já não são concebíveis falhas como esta. Em qualquer outro festival que orgulhosamente se enquadre entre os melhores, isto teria sucedido também? Fica a pergunta..
Por vias travessas, a Lady Vengeance sempre apareceu e salvou a noite.Sala cheia, o ambiente Fantas no seu melhor: descontracção, sem barulho pipocas, com reacções imediatas ao que se passa no ecrã...
O filme prima, acima de tudo, por uma realização soberba ( com pormenores deliciosos e um estilo que se vai tornando já imagem de marca deste realizador) e uma actuação inesquecível da protagonista, Lee Young-ae. Impressionante é a melhor palavra para a descrever...
A história é um cocktail improvável de violência, romance, humor negro e vingança, onde sobressai um tipo de cinema muito "sensorial", quase palpável, tal é a perfeição do tratamento dado a cada sequência, a cada frame, com um modo de utilizar a câmara inovador e uma fotografia e montagem surreais.
Surpreende para quem nunca viu, sabe a pouco a quem já viu e quer mais. A indiferença, no entanto, é impossivel... A não perder, para qualquer cinéfilo que se preze.
Venham mais assim que lá estaremos...

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

"the flag of catsland"


Varna seaside, by Ivan Stefanov

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

coisas de amanhã

ALARMES

não desenroles tanto a noite
em tua pele. não equipares ao corpo
o tropel das palavras
na toalha. não encalhes em mim
tanta beleza. aperta
a blusa. recolhe do meu rosto
os teus olhares, alguma lágrima
brilhando sobre a mesa.

sossega. é cedo ainda
para o deserto trepidante
do desejo. não julgues saber já
que desenlaces
o meu corpo procura
sobre o teu. nem eu te ofereço
o armadilhado morango
do amor. apenas peço
que adormeças,
que dês lugar na cama
ao meu fantasma.

coloca o coração
numa órbita prudente. talvez não tarde
o tempo,
o lugar onde eu te diga
as palavras que desligam
os alarmes que instalei
em toda a alma.


Luís Miguel Queirós

*via Poesia & Lda.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

os cartoons heréticos - VIII

Caro amigo administrador,

- Longe de mim pensar que aprovarias alguma vez estas formas de violência, ou que aprovarias algum ataque ao sistema democrático. Aquilo que nos distancia é que para mim estes cartoons são eticamente correctos, legítimos, não ofensivos, não desrespeitadores, um dever ético, e para ti estes cartoons representam uma ofensa, um desrespeito, um insulto.

- Por um lado, aceitas que "não faz sentido nenhum" a proibição das representações gráficas, mas por outro consideras irresponsável e ofensivo que alguém que partilhe dessa tua opinião – justamente a de que essa proibição não faz sentido algum – desrespeite essa lei absurda, e desenhe o profeta como modo de veicular uma ideia, uma opinião, uma indignação. Tornas inclusivamente explicito que passarias a ver-me como uma "pessoa pouca respeitadora", com direito a uma "menor admiração" da tua parte se eu me arrogasse a apresentar aqui um cartoon do Maomé. Isto é, seria uma "pessoa pouco respeitadora" se não respeitasse uma lei absurda, que tanto para mim como para ti, não "faz sentido nenhum". Vais-me desculpar, mas não poderei nunca concordar com isto.

- Mas é claro que eu considero o canibalismo uma indignidade, que devemos todos denunciar. Como considero tantas outras coisas, em tantos outras zonas do planeta, uma indignidade não menos desculpável que os actos de terrorismo em nome do Islão. Só não me referi a eles porque o debate centrava-se noutro lugar: nas atitudes de um tipo de civilização em relação à liberdade e à dignidade da pessoa humana, apanágio de uma outra.

- Penso que a tua observação em relação a Nietzsche talvez se adequasse melhor a Russell. Recordo-te que Niezsche fala de Cristo retratado por S. Paulo como um ser "psicologicamente doente", e retrata o próprio S. Paulo como um "imbecil".
De resto, se eu concordo com uma ideia, se considero essa ideia pertinente, não é por ela ser transmitida em forma de um cartoon humorístico de discutível qualidade estética ou se a tenho de ler na forma de um denso tractatus que lhe vou atribuir maior ou menor legitimidade.


Caro amigo Carlos,

- Embora concorde com aquilo que dizes, penso que é pertinente referir ou acrescentar, já agora, que, quanto a mim, o sentimento religioso é algo que não esgota a sua explicação do estudo da história, mas terá raízes mais profundas: na busca do sentido último do ser humano.
A análise história que fazes dos movimentos deste sentimento é muito interessante.

100 anos

«Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se a1guns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.»

Agostinho da Silva, "Cartas a um jovem filósofo"

os cartoons heréticos - VII

O conhecimento histórico normalmente explica tudo. O ser Humano sempre gostou de uma certa coerência, e apesar de ciclicamente uns se apontarem aos vizinhos como os superiores detentores da virtude, a realidade cruel é que pertencemos todos à mesma classificação biológica e como tal os mesmos pensamentos ocorrem em épocas diferentes. Se adicionarmos a isto o molde religioso, com umas pitadas de monoteísmo, com uma mistura qb de ignorância induzida e mantida como forma de controlo social, temos coberta toda a população desde as Américas, Europa e o chamado Médio Oriente nos últimos 2000 anos.
Friamente, a realidade é que estamos em guerra. Não é de agora! sempre estivemos! (clicar mapa) é do mais cíclico que existe! Houve, há e haverá sempre alguém que pense que os "outros" são uns infiéis. O código de conduta de um líder religioso passa sempre pela hostilização dos "outros".
Durante perto de 200 anos tudo fizémos para expulsar os mouros "da terra santa". Portugal nasceu daqui. Como não conseguimos, virámo-nos para nós próprios: 500 anos de purificações . Curiosamente, podemos dizer que o Islão começa ao contrário.

É do mais elementar senso imaginar que o Islão pretenda reconquistar aquilo que perdeu.

Para mim, a publicação do que quer que seja sobre o que quer que seja, é do mais elementar DEVER de alguém que pensa de forma contrário ao status quo. O "medo de represálias" só devia atiçar esse dever.

Eu se pudesse, censurava tudo o que passa na SIC, TVI e RTP durante os programas da tarde/manhã, mas penso possuir a capacidade de imaginar que (infelizmente) haja quem veja e aprecie aquilo.

os cartoons heréticos - VI

Caro amigo,

se leres com atenção o que escrevi, eu NUNCA aprovei as reacções violentas. Isto que te fique bem claro. E nunca toleraria censura ou quaisquer limitações à liberdade de expressão em qualquer país democrático, assim como não tolero onde não existe democracia. Isto que fique bem claro também.
O que acho é que existe uma enorme falta de respeito para com uma cultura diferente, que não legitima a violência (DE FORMA ALGUMA!), mas que não deixa de representar uma ofensa.

Quanto à caracterização mais ou menos imagética que as escrituras possam fornecer, e sobre o que uma representação gráfica possa significar, é um problema deles! Se tu não és muçulmano, é óbvio te faz toda a confusão que lhes seja proibída a representação gráfica do seu profeta. Eu também acho que não faz sentido nenhum, por isso é que não sou muçulmano, sou cristão, mas respeito, mesmo que esteja a respeitar um certo atraso de "pensamento teológico", chamemos-lhe assim.

Se acreditas "num sistema de valores que se baseia no respeito pela liberdade e dignidade humana" e se "a nossa cultura tem o dever de o fazer", então pergunto-me se te preocupas igualmente com as tribos canibais de África, ou com alguns rituais bizarros dos índios americanos - ou será que esses não interessam tanto por estarem lá no cantinho deles sem ameaçarem ninguém?

Penso que consegues distinguir a construção de um pensamento filosófico crítico de alta inteligência e densidade, de uma edição provocatória de uns meros cartoons - se me disseres que admiras tanto o editor dinamarquês quanto admiras o Nietzsche, então não sei mais o que pensar...

domingo, fevereiro 12, 2006

Provocação I

A reacção muçulmana à publicação de uns cartoons, naquilo que teve de violenta, está errada, é condenável e não poderia ter acontecido.
Alguém consegue fundamentar?

sábado, fevereiro 11, 2006

os cartoons heréticos - V

Caro amigo

As nossas opiniões divergem criticamente. Não percebo realmente porque tenha que ser visto com menor “admiração” ou seja “menos respeitador” se não agir em consonância com o que uma dada religião dita. Penso, pelo contrário, que a uma crítica sistemática à religião enquanto fenómeno social, histórico e psicológico é de extrema importânciae. O que vejo amiúde fazer-se, como método de escape, é relegar a religião a uma experiência espiritual de tal modo íntima e preciosamente pessoal que qualquer tentativa de a objectivar social, histórica ou psicologicamente é vista como um atentado ímpio à sensibilidade das pessoas que a praticam. A história mostra-nos que sempre existiram práticas religiosas muito pouco éticas e que merecem ser objecto de crítica. No limite da tua proposta uma ceita que adore com todo o seu ânimo o Deus-Crocodilo e que proíbe a banalização gráfica da sua venerável divindade teria legitimidade em ter como um dos seus objectivos primeiros dizimar todos os que se arrogassem a vestir uma camisa Lacoste §. É um exemplo limite (não muito longe do que acontece de facto em certas zonas do planeta) do que pode ser uma estrutura religiosa erguida sobre os alicerces da irracionalidade.
Eu penso que é perfeitamente legítimo representar "graficamente" Maomé e não penso de modo algum que isso seja uma ofensa ou um acto de desrespeito. A nossa cultura, na qual me orgulho de pertencer, começa já a consolidar uma tradição essencialmente crítica que se pretende independente da sensibilidade da pessoa A ou de B. Estávamos muito mal se assim fosse. Aliás: é condição necessária e essencial da análise crítica que seja justamente isenta desse tipo de motivações. Eu orgulho-me de viver numa sociedade que de Nietzsche a Russell soube fazer um exame severo e inflexível não só das práticas religiosas como das próprias Escrituras. Será que também vês o Nietzsche do “Anticristo” ou o Russell do “Porque não sou cristão” como dois seres humanos que merecem menor admiração ou respeito porque ousaram criticar tanto as práticas de religiosos como a própria Bíblia e a figura de Cristo, ela mesma(1)? Eu, pelo contrário, tenho orgulho em poder lê-los e penso que se me sentisse cristão veria nestes textos não um atentado à minha sensibilidade espiritual, mas antes uma oportunidade de a fortalecer. Não entendo porque diabo uma “representação gráfica” deva ser vista de modo substancialmente distinto que uma análise textual acerca dos conceitos em jogo. Existe porventura uma imoralidade inerente à imagem?! Quando faço um desenho, uma caricatura neste contexto, o que pretendo é transmitir uma mensagem de modo exactamente análogo à que tentaria transmitir num texto de opinião, e não retratar a realidade concreta de um dado objecto. Reside logo aqui um dislate lógico elementar: é nas próprias escrituras que uma imagem do profeta é construída (guerreiro e conquistador, etc, etc, com direito até a elementos descritivos da sua fisiologia!) e estes delicados muçulmanos arvoram-se a anatemizar quem se atreve passar do mundo imaculado do pensamento ao papel: representante da contingência do mundo exterior, mundano, impuro. Se faço uma caricatura de Maomé implicando-o com o terrorismo não é porque queria incluir todos os muçulmanos dentro da Al Qaeda, ou pretenda implicar o islamismo com práticas terroristas, mas porque quero alertar para o absurdo de uma dada amostra de muçulmanos praticarem actos terroristas em nome do Islão. Há uma série de críticas urgentes a fazer em relação ao mundo islâmico e (porque não!?) aos próprios textos sagrados. A nossa cultura tem o dever de o fazer. Se acredito num sistema de valores que se baseia no respeito pela liberdade e dignidade humana não é porque devo ter em consideração o sentimento religioso de um dado individuo ou grupo de indivíduos que me vou demitir de denunciar aquilo que me parece precisamente contrário a esse sistema de valores.


(1) A título de exemplo recordo uma das conclusões de Russell: “Devo dizer que considero toda esta doutrina [cristã] – a de que o fogo eterno é um castigo para o pecado – como uma doutrina de crueldade. É uma doutrina que pôs crueldade no mundo e submeteu gerações a uma tortura cruel – e o Cristo dos Evangelhos, se pudermos aceitá-l’O como os seus cronistas O representam, teria, certamente, de ser considerado, em parte, responsável por isso.”

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

1 ano

- Sabes como é, não podia deixar de assinalar a data.
- A data? Qual data?
- A data.
- Qual data?
- A data.
- Qual data?
- A data.
- Qual data?
- A data.
- Qual data?

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

os cartoons heréticos - IV

Caro amigo jorDas,

respondendo de uma forma simples à tua questão: devem. Reparo, no entanto, que não me exprimi da forma mais correcta, e talvez por isso tenha sido mal interpretado.

Não acho que se deva legislar no sentido de proibir a edição de cartoons ou censurar qualquer tipo de expressão (artística ou não). Não é isso, e, tanto quanto sei, ninguém falou ainda nisso para que justificasse a reacção chegar onde já chegou. O que acho é que os jornalistas (assim já percebes que a crítica que faço é ao editor e não ao ilustrador) se esquecem demasiadas vezes de um valor que, por implicar o "outro" (no sentido amplo do termo), para mim é tão ou mais importante que o da liberdade: o do respeito.

É óbvio que os responsáveis não previam a reacção violenta, mas é também óbvio que alguma reacção contavam obter, caso contrário não tinham publicado nem caricaturas nem editoriais, nem tinham sequer congeminado a ideia.

Posso dizer-te que se quiseres fazer um post com uma ou mais caricaturas de Maomé, eu, como administrador do blog, não te vou censurar, as caricaturas não serão apagadas e tu não serás expulso, nem eu abandonarei o blog como forma de protesto. Nada disso. Passo é a considerar-te uma pessoa pouco respeitadora e que por isso não merece tanta atenção nem admiração de minha parte. Do mesmo modo que ignoro a imprensa sensasionalista, por exemplo, ou as entrevistas da Constança Cunha e Sá, sem exigir que se proibam ambos.

A questão que, por minha parte, coloco é esta: se há uma religião para os crentes da qual a representação gráfica de um profeta é proibida (uma representação gráfica qualquer!), e insultuosa se feita por não-crentes, porque hei-de eu arrogar-me da minha liberdade absoluta para o fazer?

os cartoons heréticos - III

Ao meu amigo administrador:

A questão que coloco é a seguinte: devem ou não os cartoonistas ter o direito de expor as suas ideias, convicções, opiniões sob a forma da sua arte?

Colocas a questão da co-implicação entre liberdade e responsabilidade. Como dizes só poderei ser responsabilizado se me deixarem ser livre. Mas como se podem propor modos de responsabilizar a priori o uso da liberdade individual? Eu poderia aceitar uma sustentação desses modos em casos muito diferentes dos que estão em causa. Vejo, por exemplo, como perfeitamente razoável que crianças que estão em fase de amadurecimento da sua personalidade sejam protegidas de emissões de pornografia às 5 da tarde. Aqui estaria em causa a salvaguarda de direitos que a nossa civilização aceita como essenciais.

Mas a questão é diferente. O que eu vi nestes cartoons forem ideias e opiniões (sob a forma de desenhos humorísticos – como poderia ser sob a forma de uma crónica de opinião, ou uma outra qualquer forma de expressão) de gente livre e adulta que sabe pensar para gente supostamente livre e adulta que também supostamente sabe pensar. Ambos têm o dever de fazer uso da sua razão. Se não aceitamos este pressuposto, estamos a admitir que as pessoas que se sentem feridas com estas “provocações” não estão ao mesmo nível que as pessoas que aceitam este tipo de piadas como forma de pensar e pôr em causa os seus pensamentos e convicções. Mas se assim é, não há nada a fazer: que adianta falar com crocodilos? O esforço no uso da razão é condição necessária de qualquer diálogo inteligível que se queria estabelecer. O outro modo possível é a bomba e o José Cid. Considero que neste caso concreto vedar a possibilidade dos cartoonistas exporem os seus pensamentos seria uma forma de censura ilegítima: um retrocesso civilizacional, ao nível dessa gente perigosamente tacanha que propõe a morte de pessoas inocentes como forma eficaz de resposta.

Estes cartoonistas agiram eticamente? Para responder a esta pergunta, devemos perguntarmo-nos: o que significa agir eticamente? Proponho uma resposta simples e que me parece bastante operativa: agir eticamente significa agir livremente segundos princípios que racionalmente acolhemos como significando aquilo que para nós é justo e correcto. Ou seja, agir segundo princípios e não segundos inclinações físicas, psicológicas, patológicas que constituam motivos outros que não os que acreditamos incluir-se na nossa ideia de justiça, mas que podem condicionar, impedir ou mesmo inverter o sentido das nossas acções. Estes cartoonistas agiram eticamente na medida em que agiram segundo aquilo que lhes ditou a sua razão crítica na denuncia em relação a modos de pensar e viver que lhes parecem contraditórios, absurdos, cruéis e desumanos. E não abdicaram de o fazer com o medo patológico das consequências que podem resultar da estupidez flagrante de um conjunto de pessoas. Do ponto de vista estritamente ético, esta denuncia deveria mesmo ser levada a cabo por todas as pessoas que acreditam nestas ideias. E nunca o contrário: fugir a essa responsabilidade porque as coisas já estão “suficientemente inflamadas”. Estas manifestações constituem por si só mais um elemento desta análise crítica: sintomas visíveis de intolerância, de ódio em relação ao outro que ousa pensar diferentemente, de desrespeito implacável pelo ser humano.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

e o que tem de ser tem muita força - III

E sobre isto, o que nos dirá o Sr. Ruas? A notícia no dia em que Avelino Ferreira Torres vai de novo a julgamento (já agora: é um timming fabuloso, não é?).

terça-feira, fevereiro 07, 2006

a OPA da SONAE

Bem, se começa a nevar temos telejornais de quê, 5 horas?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

os cartoons heréticos - II

Não se tratou de uma simples caricatura publicada inocentemente. Depois de tomar conhecimento de que vários ilustradores se recusaram desenhar Maomé com medo de represálias causadas por motivos religiosos, e por achar que isso representava uma limitação à liberdade de imprensa, o jornal dinamarquês convidou 40 cartoonistas para ilustrarem o profeta num livro sobre a vida do mesmo. Desses cartoons 12 foram inicialmente publicados pelo jornal. Para além do que o desenho em si representa, isto não será, por si só provocatório?

Temo-nos habituado (e mal) a uma comunicação social imune que se permite impôr como máquina manipuladora de massas, por um lado, e voluntariosa invasora da esfera privada em prole da denúncia justiceira, por outro, sem que a mínima responsabilidade lhe seja atribuída. Não defendo os muçulmanos nem deixo de condenar as violentas reacções que tiveram aos cartoons. Acho, porém, que este acontecimento (longe de um mero episódio) é um bom motivo para as sociedades ocidentais repensarem o papel da imprensa e do jornalista como ser social e cultural com os seus direitos e deveres, e não apenas como profissional permanentemente invocando a sagrada liberdade de imprensa. Ora o homem só enquanto livre poderá ser responsável - não terá então o dever de ser responsável enquanto livre?

Do mesmo modo que as comunidades muçulmanas residentes na europa - e que de forma pacífica reagiram criticamente às caricaturas, serão injustamente associadas à violência e ao fanatismo, também os países europeus, e mais directamente os dos jornais protagonistas da polémica, serão erroneamente vistos como desrespeitadores do mundo islâmico. Há, portanto, injustiças de parte a parte.

Não vale a pena tentar arrumar rapidamente a questão condenando prontamente a violência ou os cartoons. O que está em causa é a convivência pacífica de culturas muito diferentes no mesmo planeta, e isso não tem que ver apenas com liberdades de expressão nem apenas com fundamentalismos religiosos. A análise tem que ser mesmo antropológica e passa, por exemplo, pela definição de "sociedade moderna" e dos seus valores que nós, ocidentais, fazemos questão de reivindicar e afirmar, sem pensar no quanto ofensivo isso pode significar para o mundo do islão, assim como passa pelo reconhecimento dos direitos humanos e do seu respeito por parte dos muçulmanos das sociedades orientais.

domingo, fevereiro 05, 2006

VAMOS PARA A GUERRA!

O que se passa neste nosso Mundo?

Se folhear o jornal, que encontro eu?
Ora são os EUA no Iraque, ora são os EUA no Afeganistão, ora são os EUA contra Venezuela e Venezuela contra os EUA, ora é o povo Árabe contra a Dinamarca e França e Ocidente, ora são os EUA contra o Irão, ora são os palestinianos e os israelitas, ora são os israelitas e os palestinianos… para onde vamos? É este o verdadeiro rumo que pretendemos caminhar? Tanta agressividade, tanta falta de diálogo, tanto ódio em nome do quê? De quem? Da Liberdade? E a culpa é de todos ou é de ninguém? E depois disto tudo, onde anda a ONU? O que nos resta para manter a paz mundial?

Precisamos mesmo de parar para pensar. Urge intervir.


E Portugal? Nós por cá, neste canto à beira mar plantado, andamos entretidos com o quê? Apito Dourado? Derrota do Benfica? Haja paciência…

sábado, fevereiro 04, 2006

os cartoons heréticos

Não se percebe. Então vemos grupos de árabes que se revoltam, se manifestam, ameaçam bombas, destruição, Delfins, e qual é a causa? Umas representações cartonescas, supostamente heréticas, do profeta Maomé, num jornal dinamarquês. Eu vi os cartoons e fiquei chocado. Fiquei chocado ao pensar que ainda há gente que de tal se sinta chocado ao ponto de querer intervir nesses moldes. Para acentuar o meu espanto, vi na televisão teólogos nessa matéria sustentarem a indignação dessa populaça árabe. Penso sempre o papel do teólogo como o de alguém que trabalha a parte racional do tema da religião até onde ele possa ser racionalizado e que nesse processo possível de racionalização não se deixa contaminar pelo que ultrapassa já a ordem do racional, mas em que se sente integrado pela sua crença pessoal. Isso não aconteceu.
Recordo há tempos ter visto os gato fedorento incarnarem os representantes da Igreja. Discutiam entre eles a qualidade das casas de meninas que já haviam frequentado. Aquilo chegou ao Papa, se bem me lembro, elogiando as criativas prestações de uma fugosa brasileira, a "Jurassi". Não vi na altura qualquer reacção a esse sketch. E fiquei contente: significava para mim que a sociedade contempla com naturalidade este tipo de abordagem. Espero que um dia o António possa voltar a pôr um preservativo no nariz do Papa com a mesma tranquilidade com que os gato foderento curtem umas voltas de carro ao som do Terço (um outro dos seus sketchs blasfemos). Eu próprio tenho muito essa mania, e acho por exemplo a pomba da maria muito sugestiva...
O que se passa é que estas pessoas que criticam o não-bom-senso destes cartoonistas esquecem-se que o que é de facto eticamente criticável é uma sociedade que não tolera o princípio da contradição e as clivagens de opinião de uma outra, a nossa sociedade ocidental, que tem a sua ordem social fundada justamente nestes critérios de respeito pela divergência e pluralidade de pensamento. O mais alto valor que conseguimos historicamente conquistar.
Se estes cartoonistas agiram honestamente, em consciência, pelo que lhes foi ditado pela sua razão, então não é pelo medo das consequências de um grupo de fundamentalistas cegos e ignorantes que iriam abdicar de o fazer.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

e o que tem de ser tem muita força - II

Não acharam chocante o péssimo inglês da Judite de Sousa na entrevista ao Bill Gates? E não acharam igualmente chocante (talvez um bocadinho mais, sejamos razoáveis) o facto de Mr. Gates, mesmo contribuindo com milhões de dólares para o combate à pobreza e à SIDA, continuar o homem mais rico do mundo? Ou ainda, que essa máscara de alma caridosa mereça a condecoração do nosso ainda Presidente? Ou ainda (a cereja em cima do bolo) que é preciso vir a empresa do Mr Gates para Portugal ensinar Word e Excel aos nossos trabalhadores?